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Da competição ao free surf: o que aprendi como surfista profissional

Marina Rezende · 5 min de leitura · Publicado originalmente em , atualizado

Duas fotos da Marina Rezende: remando com a lycra de competição e fazendo free surf em uma onda, com uma prancha rosa.

Depois de anos de viagens ao redor do mundo, pressão, treinos, resultados, patrocinadores, faz mala, desfaz mala, carrega sarcófago de prancha pra lá e pra cá, “perrengues”, vida individual e algumas vezes solitária, percebi que minha paixão pelo surf não estava em disputar meu nível com outras meninas, mas minha felicidade estava em expressar minha personalidade desenhando nas linhas do oceano em uma sincronia quase perfeitamente ensaiada com essa imprevisível força da natureza.

Marina Rezende comemorando uma vitória, de braço erguido e com a prancha, carregada nos ombros na praia.
“Percebi que minha paixão pelo surf não estava em disputar meu nível com outras meninas…”

Como o surf e a competição entraram na minha vida

Então, voltando um pouco no tempo… Meus pais falam que sempre tive uma atração inexplicável pelo mar: assim que aprendi a caminhar, corria direto pra água incontáveis vezes, até um dia meu pai deixar eu ir sozinha pra “levar um susto” e ver se parava com isso. Adiantou? Não… Cresci na praia vendo meu pai dentro da água e, assim que me entendi por gente, só queria fazer o mesmo. Como meu pai era técnico de natação, acho que a competição já estava intrínseca dentro de mim, e 2 anos depois eu já estava em uma competição. E foi nesse momento, após sentir aquele êxtase de ser campeã pela primeira vez na vida, com 8 anos de idade, que eu decidi meu futuro e minha profissão de vida kkkkk parece cômico, mas é verdade! Porém nunca foi forçado, acho que no fundo meu maior objetivo era surfar melhor que meu pai (objetivo concluído com sucesso lol).

Foto antiga da Marina Rezende criança, de lycra amarela, surfando uma onda pequena em uma prancha, com um adulto dentro d’água atrás dela.
“E com 8 anos de idade, eu decidi meu futuro e minha profissão de vida kkkkk parece cômico, mas é verdade…”

A vida de atleta profissional

Posso dizer que minha vida realmente girou em torno do surf e das competições por volta dos 14 anos. Pé na estrada pelo menos 2 vezes por mês, campeonatos estaduais, nacionais, sul-americanos, e assim foi durante alguns anos.

Até que, após uma carreira consolidada, muitas vezes entre as 5 melhores nacionais e sul-americanas, aos 22 comecei a não me sentir tão feliz com “essa vida” e tudo que conhecia até então… Sentia que faltava profundidade, faltavam laços, faltava sentido. De repente a vida se tornou acordar cedo, treinar até anoitecer, comer bem, fisioterapia, psicólogo, nutricionista, quarto de hotel, campeonato, hora de mostrar tudo que treinei, choro, volta pra casa, treinar mais, próximo campeonato… Muita disciplina, distância da família, muita diversão, muitas facilidades, mas pouca profundidade… De repente nada disso fazia sentido para mim… Entrar no mar para fazer o que amo e sair estressada porque não consegui fazer tal nota ou tal manobra começou a ficar pesado.

Marina Rezende, de lycra vermelha, no pódio de um campeonato de surf feminino, ao lado de outras atletas segurando cheques de premiação.
“De repente a vida se tornou acordar cedo, treinar até anoitecer, comer bem, fisioterapia, psicólogo, nutricionista, quarto de hotel…”

Quando a competição deixou de fazer sentido

Então começou a dúvida: se eu estou fazendo o que mais amo (surfar), por que estou saindo da água estressada? “Alguma coisa errada não está certa por aqui.”

Então, por aí, foram 3 anos de dúvida, querendo parar mas não tendo coragem. E é claro que, se você quer ser a melhor do mundo, tem de querer aquilo mais que qualquer um, e a sua vida tem que girar 100% em torno disso: dúvida não é o melhor combustível para um atleta.

Marina Rezende com outras surfistas profissionais em um evento do circuito da WSL em Buenos Aires, Argentina, com a lycra do Rip Curl Pro na mesa.

A decisão de parar de competir

Em 2022, após a pandemia mexer com a cabeça de todo mundo trancado dentro de casa, tomei a decisão mais difícil da vida: vou parar de competir, largar meu patrocinador e recomeçar em outro país, bem longe daqui. De certa forma uma fuga, de outra forma a melhor escolha que fiz. Demorou pouco tempo para me dar conta de que amava ir surfar com amigos sem pressão nenhuma, pouco tempo pra me dar conta de que as sessões em que eu não surfei bem também eram divertidas, pouco tempo pra me sentir feliz por minha vida financeira não depender mais do meu surf, e isso gerou uma leveza, tirou um peso das costas. Hoje, sinceramente, penso que misturar nosso esporte com “dinheiro” é delicado e nem sempre funciona: muitas vezes deixa de ser prazeroso ao se tornar obrigação.

O que o esporte me ensinou

Posso dizer que foram muitas vitórias, muitas derrotas, milhões de lições que só o esporte nos proporciona, como disciplina, persistência, manter a calma sob pressão, lidar com o medo e com a ansiedade, metas a longo e curto prazo, entre tantas outras essenciais para ter uma vida em equilíbrio.

Hoje tenho toda certeza de que o oceano e o esporte foram meus maiores professores de vida e construíram a pessoa que sou hoje. E a única certeza que tenho na vida agora é que quero fazer isso até quando meu corpo aguentar. Porém livre, leve e solta, ou, como alguns chamam, “free surfer”.

Vista aérea da Marina Rezende boiando de costas no mar verde-azulado, ao lado de uma prancha rosa.
“Quero fazer isso até quando meu corpo aguentar. Porém livre, leve e solta, ou, como alguns chamam, “free surfer”.”

Para atletas, pais e a nova geração

Senti que era importante escrever sobre isso, pois essa transição de profissional para o free surf é um jogo psicológico em que já vi tantos atletas se perderem, em que vejo tantos amigos passando por essa mudança dolorida, e queria que soubessem mais sobre isso, que falassem mais sobre esse assunto e que fosse mais divulgado. E também para os pequeninos que estão vindo, para a nova geração que já começa a surfar para ser campeã mundial, ou ainda para os pais que impõem esse futuro aos filhos para dar a oportunidade que eles não tiveram…

Acho que a competição é sim uma das maiores mestres da vida. Mas que fique claro que ser atleta é uma parte da nossa vida, é apenas uma das peças na engrenagem da vida, e esquecer que somos muito mais do que ganhar campeonatos fez e faz muitos atletas terem depressão e sofrimento por tanto tempo, ou a vida toda. Que lindo é uma carreira de sucesso, mas ainda mais lindo é ter uma boa base e pessoas que amamos ao nosso redor… E às vezes aquele sonho de criança não condiz mais com os sonhos e objetivos de um adulto maduro, e está tudo bem não realizar os sonhos de infância, porque sonhos mudam ao longo da vida, e isso não é um sinal de fraqueza ou de desistir, mas sim de maturidade e discernimento. E quando pensamos que a vida vai acabar quando acabar a carreira, na verdade, é aí que está começando!

Como isso virou o Surf Like a Girl

Por mais de 15 anos, a Marina viveu o surf como atleta profissional, competindo, viajando e construindo sua vida em torno da própria performance, até perceber que faltava uma parte importante nessa jornada: compartilhar.

O que começou de forma despretensiosa, ajudando outras pessoas a evoluírem no surf, ganhou propósito, estudo e metodologia. Assim nasceu o Surf Like a Girl: um treinamento de surf feito para mulheres, unindo a experiência de atleta aos princípios da aprendizagem e desenvolvimento, junto a algo que sempre fez parte das melhores memórias no surf: compartilhar o line-up com a sua galera.

Marina Rezende

Marina Rezende

Surfista profissional com mais de 10 anos de WSL, fundadora e head coach do Surf Like a Girl Team.

A história da Marina →Ver os programas →

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